Agro pode ganhar bilhões com mercado de carbono, mas especialistas descartam ‘terceira safra’

 Agro pode ganhar bilhões com mercado de carbono, mas especialistas descartam ‘terceira safra’

BRASIL TEM POTENCIAL PARA GERAR ATÉ 314,3 MILHÕES DE CRÉDITOS DE CARBONO ATÉ 2035, MAS TRANSFORMAR ESSE VOLUME EM DINHEIRO DEPENDERÁ DE REGRAS, CERTIFICAÇÃO, MONITORAMENTO E PROJETOS CAPAZES DE COMPROVAR A REDUÇÃO DAS EMISSÕES

Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação

O agronegócio brasileiro pode encontrar no mercado de carbono uma nova fonte de recursos, mas especialistas fazem um alerta importante: carbono não é uma terceira safra e não representa dinheiro fácil para o produtor rural.

Um estudo da Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), estima que projetos de descarbonização da agropecuária brasileira tenham potencial para gerar até 314,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em créditos entre 2025 e 2035.

O número chama atenção, mas não significa que todo esse volume já esteja disponível para venda ou que represente uma receita garantida para os produtores.

A estimativa foi dividida em três cenários. No mais conservador, considerando apenas projetos já registrados, seriam cerca de 25,6 milhões de créditos. Em uma projeção intermediária, o volume chegaria a 230 milhões. No cenário de maior aproveitamento do potencial identificado, seriam 314,3 milhões de créditos.

A maior parte desse potencial está relacionada à recuperação de pastagens degradadas e ao aumento do carbono armazenado no solo. O estudo calcula 312,1 milhões de créditos por meio da metodologia VM0042, da Verra. Outros 2,2 milhões poderiam vir de projetos de redução de metano no tratamento de dejetos animais.

Para o pesquisador Marcelo Morandi, da Embrapa, o potencial brasileiro é expressivo, mas precisa ser tratado com realismo.

“O carbono é um projeto. Como projeto, ele tem que ser monitorado.”

Na prática, isso significa que o produtor precisa provar que determinada atividade realmente reduziu ou retirou gases de efeito estufa da atmosfera.

Pará entra no movimento de agricultura de baixo carbono

O Pará também começa a ocupar espaço nessa discussão.

O Estado implantou o Plano ABC+ Pará, estratégia voltada à adaptação das tecnologias de agricultura de baixo carbono às características da Amazônia. Em 2026, o governo estadual promoveu oficinas e consultas para adaptar essas práticas à realidade produtiva paraense.

Entre as alternativas estão os sistemas agroflorestais (SAFs), integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de áreas degradadas e práticas capazes de aumentar o carbono armazenado no solo e na vegetação.

Um exemplo importante vem da cadeia do cacau. Um estudo da Ceplac e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), financiado pelo Funcacau, identificou alto potencial de sequestro de carbono em sistemas agroflorestais de cacau no Pará. A pesquisa foi apresentada em Belém em abril deste ano e aponta a possibilidade de geração de renda adicional para produtores por meio de créditos de carbono.

Além disso, o Pará já avança em outra frente: o mercado de carbono ligado à redução do desmatamento. Em 2025, o Estado apresentou ao padrão internacional ART TREES documentação que apontou 38 milhões de toneladas de CO₂ evitadas em 2023, iniciando o processo de certificação internacional dessas reduções.

Isso mostra que o debate sobre carbono no Pará vai muito além da produção agrícola: envolve floresta, pecuária, sistemas agroflorestais, agricultura familiar e políticas de conservação.

O dinheiro não vem automaticamente

Para que uma tonelada de carbono se transforme em um crédito comercializável, é necessário comprovar que houve redução ou remoção de emissões.

Esse processo envolve a chamada mensuração, relato e verificação (MRV). O projeto precisa ser acompanhado, os resultados devem ser medidos e a documentação precisa passar por processos de verificação.

No caso do carbono armazenado no solo, por exemplo, podem ser necessárias coletas de amostras e análises laboratoriais. Isso aumenta os custos e pode dificultar a entrada de pequenos produtores.

Uma alternativa é trabalhar por meio de cooperativas, associações ou projetos coletivos, capazes de dividir os custos de medição, certificação e monitoramento.

Esse ponto é especialmente importante para o Pará, onde existe uma grande diversidade de produtores e sistemas de produção, incluindo agricultores familiares e comunidades que podem adotar sistemas agroflorestais.

Carbono não funciona como soja ou milho

Uma das principais diferenças é que o produtor não simplesmente “vende” carbono e encerra a operação.

Uma tonelada de soja entregue ao comprador encerra aquela transação. No caso do carbono, o produtor pode assumir compromissos de longo prazo para manter o resultado ambiental que deu origem ao crédito.

Projetos podem durar 20 ou 30 anos. Nesse período, incêndios, secas, mudanças no manejo da propriedade ou outras ocorrências podem comprometer o carbono armazenado.

Por isso, especialistas defendem mecanismos de monitoramento e, em determinados projetos, seguros capazes de proteger contra eventuais perdas.

GOVERNO ACELERA REGULAMENTAÇÃO

Outro ponto decisivo é a regulamentação do mercado brasileiro.

O país está estruturando o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei nº 15.042/2024. Em julho de 2026, o Ministério da Fazenda abriu consulta pública sobre o cronograma de implantação do sistema de monitoramento, relato e verificação das emissões.

O ambiente regulatório será fundamental para definir como empresas e projetos poderão participar desse mercado e como os créditos brasileiros poderão ser utilizados dentro e fora do país.

O mercado internacional também é uma oportunidade, mas envolve regras específicas. Entre os mecanismos avaliados estão transferências internacionais de resultados de mitigação e mercados ligados à aviação.

NÃO É UMA “TERCEIRA SAFRA”

Apesar dos números bilionários que podem surgir quando se fala em mercado de carbono, especialistas rejeitam a ideia de que o produtor terá automaticamente uma nova fonte permanente de renda.

A chamada “terceira safra” — além da produção agrícola e pecuária, o carbono — é considerada uma simplificação exagerada.

O crédito pode gerar receita, mas depende de projeto, investimento, comprovação, certificação, monitoramento e permanência do benefício climático.

Na avaliação de especialistas, o mercado deve ser visto principalmente como uma ferramenta para ajudar a financiar a transformação do modelo produtivo brasileiro.

Para o Pará, isso pode significar uma oportunidade adicional: recuperar áreas degradadas, aumentar a produtividade sem ampliar o desmatamento, fortalecer sistemas agroflorestais e, quando houver viabilidade técnica e econômica, transformar parte desses resultados ambientais em ativos financeiros.

O RISCO DE VENDER CARBONO DEMAIS

Existe ainda uma preocupação estratégica para o Brasil.

Os créditos e resultados de redução de emissões comercializados internacionalmente precisam ser contabilizados de forma a evitar a chamada dupla contagem. Quando determinado resultado climático é transferido para outro país, ele deixa de ser utilizado pelo Brasil para o cumprimento da própria meta climática, dentro das regras aplicáveis.

Por isso, especialistas defendem cautela para que o país não venda antecipadamente resultados que poderão ser necessários para cumprir seus compromissos climáticos.

A lógica é simples: não adianta o Brasil ganhar dinheiro hoje com a venda de carbono e, no futuro, precisar gastar muito mais para compensar a falta desses resultados no cumprimento de suas próprias metas.

OPORTUNIDADE COM OS PÉS NO CHÃO

O mercado de carbono pode, sim, movimentar bilhões e criar novas oportunidades para o agronegócio brasileiro. Mas o caminho entre o potencial calculado e o dinheiro efetivamente recebido ainda é longo.

No Pará, a combinação entre agroflorestas, cacau, recuperação de áreas degradadas, pecuária de baixo carbono e conservação da floresta coloca o Estado em uma posição estratégica nessa nova economia.

A oportunidade existe. Mas, como alertam os especialistas, o carbono não deve ser tratado como dinheiro fácil nem como uma nova commodity agrícola.

É um mercado que exige ciência, regras claras, fiscalização, transparência e compromisso de longo prazo.

Com informações da Agência Ronabar/Fotos: Reprodução

Roberto Barbosa

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