Do trabalho invisível ao reconhecimento nacional: a história do açaí passa pelas mãos das mulheres de Belém
Séculos de conhecimento popular ajudam a explicar como um fruto da floresta se transformou em símbolo da Amazônia
Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação
Existe uma história do açaí contada pelos números da produção, pelas exportações e pelo crescimento do mercado. Existe outra contada pelas máquinas, pelas fábricas e pela expansão do consumo.
Mas há uma história anterior a todas essas.
É a história das mulheres que, há mais de 150 anos, já preparavam e vendiam açaí pelas ruas de Belém.
Mulheres negras, indígenas e mestiças que transformaram um fruto da floresta em alimento urbano.
O saber que não estava nos livros
O conhecimento das antigas amassadeiras não era ensinado em instituições.
Era aprendido observando.
Repetindo.
Errando.
Tentando novamente.
E recebendo os ensinamentos das mulheres mais velhas.
Estudos da UFPA mostram que a prática de preparar o açaí era transmitida dentro das famílias, especialmente de mães para filhas.
Esse conhecimento envolvia muito mais do que simplesmente retirar a polpa do fruto.
Era preciso saber trabalhar com a água, controlar o processo de despolpamento e reconhecer a qualidade do produto.
Uma tecnologia amazônica
A palavra “tecnologia” normalmente remete a equipamentos modernos.
Mas a história das amassadeiras mostra que tecnologia também pode ser conhecimento acumulado.
Durante gerações, mulheres desenvolveram e aperfeiçoaram formas de transformar o fruto em bebida utilizando ferramentas simples e força manual.
Esse saber foi essencial para que o açaí deixasse de ser apenas um recurso da floresta e passasse a fazer parte da vida urbana.
Pesquisa da UFPA sobre a economia do açaí em Belém destaca justamente essa relação histórica entre biodiversidade, conhecimento e cotidiano urbano.

A cidade que o açaí ajudou a alimentar
No século XIX, as ruas de Belém eram ocupadas por inúmeras mulheres que vendiam alimentos.
As quitandeiras comercializavam frutas, doces, mingaus e outros produtos.
Entre elas estavam as vendedeiras de açaí.
Registros históricos citados em trabalhos acadêmicos descrevem mulheres negras e indígenas vendendo a polpa do fruto na cidade.
Era uma economia de pequena escala, mas fundamental para a sobrevivência de muitas famílias.
A virada econômica
O açaí atravessou o século XX mantendo forte presença na alimentação amazônica.
Depois, veio uma mudança radical.
O fruto passou a despertar interesse comercial fora da região.
O consumo cresceu.
A indústria se modernizou.
O produto ganhou novas formas de processamento.
E o açaí amazônico transformou-se em mercadoria de alcance nacional e internacional.
O contraste é enorme: aquilo que durante muito tempo foi associado à alimentação popular passou a ser apresentado ao mercado como produto de alto valor agregado.

O Pará continua protagonista
Os dados mais recentes do IBGE reforçam o peso do Estado nessa cadeia.
Em 2024, o Pará respondeu por 168,5 mil toneladas da produção extrativa brasileira de açaí, ou 68,1% do total nacional nessa modalidade.
A força econômica do produto também ajuda a explicar por que o açaí deixou de ser apenas um alimento regional para se transformar em patrimônio simbólico da Amazônia.
De 150 anos atrás para 2026
O reconhecimento chegou também ao campo institucional.
O Dia Estadual do Açaí é celebrado em 5 de setembro, data estabelecida pela legislação para valorizar o fruto que ocupa lugar central na cultura alimentar paraense.
E, em janeiro de 2026, o Brasil deu um passo além: o açaí passou a ser oficialmente designado como fruta nacional por lei federal.
É uma trajetória extraordinária.
Do paneiro à indústria.
Da quitanda ao mercado internacional.
Da alimentação popular ao produto global.
Mas existe uma imagem que não deveria desaparecer nesse caminho:
a da mulher que, em uma Belém de mais de um século atrás, colocava uma gamela sobre a cabeça e saía pelas ruas para vender açaí.
Ela talvez não soubesse, mas estava ajudando a construir uma das maiores histórias alimentares da Amazônia.
O açaí ganhou o mundo. Mas sua história começou nas mãos do povo. E, entre essas mãos, estavam muitas mãos de mulheres.

Fotos: R3 Comunicação