Emater e Banco da Amazônia articulam crédito rural para fortalecer pesca artesanal e agricultura familiar no oeste do Pará

 Emater e Banco da Amazônia articulam crédito rural para fortalecer pesca artesanal e agricultura familiar no oeste do Pará

Parceria prevê ampliar o acesso ao financiamento rural em nove municípios da região; estimativas da Emater apontam potencial de mais de R$ 500 mil em contratos por município até o fim do ano.

Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação

O acesso ao crédito rural para agricultores familiares, pescadores artesanais, extrativistas, indígenas e assentados da reforma agrária está no centro de uma articulação entre a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater) e o Banco da Amazônia (Basa). Ao longo dos meses de outubro e novembro, equipes técnicas da Emater em nove municípios do oeste paraense estão se reunindo com representantes das agências do banco para alinhar metas, ajustar procedimentos e ampliar as oportunidades de financiamento para trabalhadores do campo e das águas.

A iniciativa envolve os municípios de Alenquer, Belterra, Curuá, Juruti, Óbidos, Oriximiná, Mojuí dos Campos, Terra Santa e Santarém. A estratégia busca aproximar a assistência técnica das linhas de financiamento rural, facilitando a elaboração de projetos e o acesso aos recursos necessários para fortalecer atividades produtivas que sustentam famílias e movimentam a economia local.

De acordo com estimativas dos escritórios regionais da Emater em Santarém e no Médio Amazonas, a atuação conjunta das instituições tem potencial para viabilizar contratos individuais superiores a R$ 50 mil, com volume coletivo que poderá ultrapassar R$ 500 mil por município até o encerramento do ano.

Os valores são projeções de potencial de contratação, e não necessariamente recursos já liberados ou contratos efetivamente assinados.

Pesca artesanal ganha destaque na estratégia de financiamento

Entre as atividades contempladas pela articulação, a pesca artesanal ocupa posição de destaque. A proposta é ampliar as condições de trabalho de famílias que dependem diretamente dos rios amazônicos para garantir renda, alimentação e sustento.

O financiamento pode ajudar na aquisição de equipamentos, materiais de pesca e outros itens necessários à manutenção e à melhoria da produção. A iniciativa também reforça a atenção a públicos que enfrentam desafios para acessar recursos financeiros, incluindo famílias assentadas da reforma agrária, comunidades extrativistas e povos indígenas.

Segundo o supervisor-adjunto do escritório regional da Emater em Santarém, o engenheiro de alimentos Marcelo Jares, especialista em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, a articulação busca superar entraves operacionais e assegurar o cumprimento das metas estabelecidas para a assistência técnica rural.

“É um momento de ajuste, por conta da transição da plataforma de cadastro socioambiental e atualização de planilhas, já que o Basa adotou novas ferramentas”, ressaltou.

Jares explica que a integração entre as equipes é fundamental para fazer os projetos avançarem e aproximar as políticas públicas das necessidades dos produtores.

“O objetivo geral é destravar a política pública de crédito rural e fazer cumprir o Proater”, afirmou.

O Plano de Assistência Técnica e Extensão Rural (Proater) é o instrumento de planejamento anual utilizado pela Emater em cada município e região para organizar suas ações e estabelecer prioridades de atendimento.

Crédito rural transforma a rotina de família pescadora em Óbidos

Os efeitos do financiamento já são percebidos por famílias que conseguiram acessar o crédito rural por meio de projetos elaborados com apoio da Emater e financiados pelo Banco da Amazônia.

Em Óbidos, no oeste paraense, a pescadora artesanal Rosinele Mamede, de 33 anos, conhecida como Nelinha, relata que o recurso obtido pela família neste ano, por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), contribuiu para melhorar as condições de trabalho.

Moradora do assentamento federal Três Ilhas, ela trabalha ao lado do marido, Lailson Carvalho, de 36 anos, na pesca de camarão e de espécies como dourada e filhote.

A rotina começa ainda de madrugada e se estende até o fim da tarde, de segunda a sexta-feira. O casal percorre as águas do rio Auerana utilizando embarcações como bajara, canoa ou rabeta, dependendo das necessidades da atividade.

Com o financiamento, a família adquiriu materiais essenciais, entre eles boias, cabos, malhadeiras e tranças, equipamentos que contribuem para a continuidade da pesca e a manutenção da produção.

“Todo mundo sabe que material de pesca é muito caro, então abrir a porta financeira facilitou muito para que a gente mantivesse e melhorasse a atividade. Este é só o primeiro crédito de muitos que ainda virão, com a ajuda da Emater”, conta Nelinha.

Produção garante renda e alimentação para os filhos

Além de comercializar o pescado e o camarão, a família também utiliza parte da produção na própria alimentação. Os filhos Lorenson, de seis anos, Raian Lucas, de 11, e Lenilson Ronan, de 12, fazem parte da rotina familiar ligada à atividade pesqueira, que combina geração de renda e segurança alimentar.

A experiência de Nelinha evidencia a importância do crédito rural para trabalhadores que precisam investir em equipamentos e materiais, mas nem sempre dispõem de recursos próprios suficientes para realizar essas aquisições.

Para famílias como a dela, o financiamento representa a possibilidade de manter a atividade produtiva, melhorar as condições de trabalho e ampliar a capacidade de geração de renda.Integração institucional busca ampliar oportunidades no campo e nas águas

A mobilização entre Emater e Banco da Amazônia ocorre em um contexto no qual a assistência técnica e o financiamento são instrumentos complementares para o desenvolvimento rural. Enquanto a Emater auxilia os produtores na orientação técnica e na preparação de projetos, o banco atua na análise e na contratação das operações de crédito, conforme os critérios de cada linha de financiamento.

A articulação nos nove municípios pretende alinhar procedimentos, atualizar informações cadastrais e tornar mais eficiente o encaminhamento das propostas. A expectativa é que o trabalho conjunto ajude a reduzir obstáculos administrativos e fortaleça o acesso às políticas públicas destinadas à agricultura familiar e às atividades tradicionais da região.

O potencial de contratação estimado pela Emater indica a dimensão da oportunidade para os municípios envolvidos. Entretanto, os resultados efetivos dependerão da apresentação e aprovação dos projetos, do atendimento aos requisitos de financiamento e da formalização dos contratos.

Com a pesca artesanal entre as prioridades, a iniciativa busca fazer com que o crédito rural chegue a quem depende diretamente dos recursos naturais e da produção familiar para viver. Em comunidades ribeirinhas como a do assentamento Três Ilhas, o financiamento pode representar mais do que a compra de equipamentos: significa melhores condições para trabalhar, alimentar a família e manter viva uma atividade tradicional da Amazônia.

Fotos e vídeo: Reginaldo Ramos/R3 Comunicação

Roberto Barbosa

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