Ciência e inovação ampliam oportunidades para a produção de mel na Amazônia
PESQUISAS SOBRE O SAMBURÁ, O MICROBIOMA DAS ABELHAS E A FABRICAÇÃO DE BEBIDAS DERIVADAS DO MEL APONTAM CAMINHOS PARA DIVERSIFICAR A PRODUÇÃO, AGREGAR VALOR AOS PRODUTOS REGIONAIS E FORTALECER A ECONOMIA AMAZÔNICA.
Por REGINALDO RAMOS e PEDRO MEDINA/R3 Comunicação
O avanço das pesquisas científicas e a diversificação dos produtos das colmeias estiveram entre os principais assuntos do II Meliapibam, encontro que chega ao encerramento neste sábado (7), em Santarém, no oeste do Pará. A programação, iniciada na quinta-feira (5), também envolveu atividades em Belterra e reuniu pesquisadores, produtores, meliponicultores, apicultores e representantes de instituições públicas, além do Sindicato dos Produtores de Mel do Estado do Pará – SINDMEL.
Mais do que discutir técnicas de criação de abelhas e produção de mel, o evento colocou em evidência oportunidades que podem ampliar a participação da apicultura e da meliponicultura na economia regional. Estudos sobre microrganismos associados às abelhas, propriedades nutricionais do samburá e desenvolvimento de bebidas fermentadas demonstram que a cadeia produtiva amazônica possui alternativas que vão além da comercialização tradicional do mel.
Para a Amazônia, onde a diversidade de espécies vegetais e a conservação dos ecossistemas estão diretamente relacionadas à atividade, a aproximação entre ciência e produção também representa uma possibilidade de desenvolver negócios associados à biodiversidade.

Microbioma: um patrimônio biológico a ser explorado
Um dos assuntos apresentados durante o encontro foi a pesquisa sobre o microbioma das abelhas, conduzida pelo doutor Carlos Alfredo Lopes de Carvalho. O pesquisador chamou atenção para a importância dos microrganismos que vivem associados às colônias e que podem representar novas oportunidades para a ciência e para diferentes segmentos industriais.
Entre as possibilidades estudadas está a utilização de bactérias em processos de fermentação, com aplicações que podem ultrapassar o universo da produção apícola.
A pesquisa também reforça a necessidade de preservar os ambientes naturais. A diversidade da vegetação e a disponibilidade de alimentos são fundamentais para a manutenção das colônias e para o desempenho das abelhas na polinização das plantas.
O pesquisador alertou ainda para os riscos provocados por alterações ambientais e situações de estresse, como mudanças bruscas de temperatura, chuvas excessivas, queimadas, exposição a agrotóxicos e aplicação de fumacê. Esses fatores podem comprometer a saúde das colônias e afetar diretamente o equilíbrio dos ecossistemas.

Samburá: um produto da biodiversidade com valor comercial
Outro destaque científico foi a apresentação da doutora Quemili Kimilla Sarmento Ribeiro, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), sobre as propriedades nutricionais e o potencial de aproveitamento do samburá.
Produzido pelas abelhas nativas sem ferrão, o alimento resulta do armazenamento e da transformação do pólen coletado nas flores, com participação de néctar, enzimas e microrganismos presentes na colmeia.
Sua composição inclui proteínas, fibras, aminoácidos, gorduras insaturadas e compostos bioativos, características que despertam o interesse de pesquisadores das áreas de alimentação e saúde.
Durante a palestra, foram apresentados estudos experimentais que investigam possíveis aplicações do produto em pesquisas relacionadas a doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e ao câncer de mama.
Em experimentos com moscas utilizadas como organismos-modelo, foram observados resultados relacionados ao retardamento de processos de degeneração neuronal. Em outra linha de investigação, testes laboratoriais apontaram redução da velocidade de multiplicação de células cancerígenas.
É importante destacar que esses resultados ainda são preliminares. As pesquisas precisam avançar por outras etapas científicas antes que qualquer benefício terapêutico possa ser confirmado para seres humanos.
Além do interesse científico, o samburá apresenta potencial econômico. Durante a exposição, foi informado que embalagens de aproximadamente 100 gramas podem alcançar R$ 150,00, valor que demonstra as possibilidades de agregação de renda à meliponicultura.

HIDROMEL E OUTRAS BEBIDAS ABREM NOVOS MERCADOS
A diversificação da cadeia produtiva também foi abordada pela doutora Samira Cavalcanti, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A pesquisadora apresentou experiências relacionadas ao aproveitamento do mel na fabricação de bebidas e outros produtos, com destaque para o hidromel, bebida alcoólica obtida por meio da fermentação de uma mistura de mel e água.
A produção de hidromel representa uma alternativa para ampliar o aproveitamento comercial da matéria-prima, explorando características de aroma e sabor que podem diferenciar os produtos no mercado.
A apresentação também contemplou a fabricação de vinagre, adoçantes e outras preparações derivadas do mel.
A proposta é estimular os produtores a enxergar a atividade não apenas como fornecedora de um alimento tradicional, mas também como uma cadeia capaz de desenvolver produtos diferenciados, alcançar novos consumidores e ampliar as oportunidades de comercialização.
Nesse cenário, a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico podem contribuir para que pequenos produtores e cooperativas diversifiquem suas atividades e agreguem valor à produção regional.
Baixo Amazonas busca integração entre produtores e instituições
A realização do II Meliapibam em Santarém e Belterra tem como uma de suas principais finalidades aproximar os diferentes segmentos envolvidos na apicultura e na meliponicultura.
A coordenadora do encontro, a apicultora e meliponicultora Adcleia Pires, destacou a importância de levar a programação para os dois municípios, permitindo maior participação regional e intercâmbio entre produtores e instituições.
O secretário de Agricultura de Santarém, Bruno Costa, também ressaltou a necessidade de articulação entre os municípios do Baixo Amazonas. A região reúne 13 municípios com diferentes características territoriais e econômicas, o que torna a cooperação institucional importante para o desenvolvimento das atividades produtivas.
Outra participação é a de Joelma Nunes, presidente da Cooperativa de Apicultores de Primavera (Cooprima), do nordeste paraense. Sua presença representa a aproximação entre experiências de diferentes regiões do estado, favorecendo a troca de conhecimentos e o fortalecimento do cooperativismo.
CIÊNCIA, BIODIVERSIDADE E GERAÇÃO DE RENDA
No último dia de programação, o II Meliapibam coloca em evidência uma questão estratégica para o desenvolvimento da economia amazônica: como transformar o conhecimento sobre a biodiversidade em oportunidades produtivas, sem comprometer os recursos naturais.
A apicultura e a meliponicultura possuem importância que ultrapassa a produção de mel. As abelhas desempenham papel fundamental na polinização, contribuindo para a reprodução de espécies vegetais, a formação de frutos e sementes e a manutenção dos ecossistemas.
A possibilidade de aproveitar outros produtos das colmeias, desenvolver alimentos diferenciados e produzir bebidas abre perspectivas para ampliar a renda dos criadores e estimular novos empreendimentos.
O encontro em Santarém e Belterra encerra sua programação neste sábado (7), deixando como principal contribuição o fortalecimento do diálogo entre pesquisadores, produtores, cooperativas e instituições interessadas no desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do mel na Amazônia.

Fotos: R3 Comunicação