Bujaru em alerta: queimadas tradicionais e risco de seca desafiam agricultura familiar
MUNICÍPIO DO NORDESTE PARAENSE CONVIVE COM MÉTODOS TRADICIONAIS DE PREPARAÇÃO DO SOLO ENQUANTO PREVISÕES APONTAM PARA UM EL NIÑO MUITO FORTE NOS PRÓXIMOS MESES
Por ROBERTO BARBOSA e REGINALDO RAMOS/R3 Comunicação
Entre a necessidade de garantir a produção no campo e a urgência de proteger o meio ambiente, Bujaru, no nordeste do Pará, entra em um período de atenção redobrada. O município tem forte relação econômica com as atividades rurais, especialmente agricultura e pecuária, e ainda convive, em comunidades tradicionais e ribeirinhas, com o uso do fogo como uma das formas de preparação da terra para novos plantios.
Leuda Coelho, secretária muinicipal de Meio Ambiente que, em função disso tudo, estão em alerta a Secretaria de Meio Ambiente (que já está toda equipada, inclusive com carro-pipa), Defesa Civil, Bombeiros, Polícia Militar e a Operação Fênix, que está na cidade, estão em pronto alerta.
O problema é que o cenário climático previsto para os próximos meses torna essa prática ainda mais arriscada. As projeções mais recentes dos órgãos oficiais de meteorologia indicam o fortalecimento do fenômeno El Niño, com possibilidade de temperaturas elevadas, redução das chuvas em áreas do Norte do Brasil, maior déficit de umidade do solo e aumento do risco de incêndios florestais.
O alerta ganhou força nesta semana. Em boletim divulgado em 1º de setembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em conjunto com outros órgãos federais, informou que existe mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro de 2026.

Para Bujaru, onde a atividade rural possui peso importante na economia e na vida das comunidades, o cenário exige uma mudança de comportamento justamente no momento em que agricultores começam a organizar novas áreas de produção.
Agricultura familiar no centro da preocupação
Dados recentes compilados pelo Sebrae a partir das estatísticas do IBGE mostram a importância da produção rural para Bujaru. Na agricultura municipal, o açaí representou 78,6% da produção em 2024, seguido pela mandioca, com 8,82%, e pela pimenta-do-reino, com 7,57%. Na pecuária, os galináceos e os bovinos aparecem entre os principais efetivos.
Essa realidade ajuda a explicar por que qualquer alteração significativa no regime de chuvas pode produzir efeitos que ultrapassam o campo. Menos água e temperaturas mais elevadas podem afetar a produtividade, as pastagens, a disponibilidade de água para os animais e as condições para implantação de novas lavouras.
O próprio painel elaborado por órgãos como INMET, INPE, CEMADEN, ANA e CENSIPAM já apontava, para a Região Norte, a possibilidade de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal, cenário capaz de aumentar a evaporação, reduzir a umidade do solo e elevar o risco de deficiência hídrica, com impactos sobre pastagens, culturas permanentes e agricultura familiar.
Fogo que prepara a terra pode se transformar em incêndio
O uso tradicional do fogo para limpar áreas agrícolas não é uma realidade exclusiva de Bujaru. Em diferentes regiões amazônicas, agricultores familiares e comunidades tradicionais recorrem historicamente à queima como alternativa de baixo custo para preparar áreas de cultivo.
O problema é que as condições meteorológicas podem transformar uma queima planejada em um incêndio de grandes proporções.
Temperaturas elevadas, baixa umidade e vegetação mais seca facilitam a propagação das chamas, aumentando também a produção de fumaça e seus impactos sobre a qualidade do ar e a saúde da população.
Por isso, a recomendação dos órgãos ambientais é que os produtores priorizem métodos alternativos ao fogo sempre que possível. Inclusive, a educação ambiental é feita pelas escolas, pelas igrejas e pelas comunidades que se preocupam muito com a questão das queimadas.
BUJARU APOSTA NA CONSCIENTIZAÇÃO
É nesse contexto que a Prefeitura de Bujaru, por meio do prefeito Miguel Júnior, e da secretária de Meio Ambiente, Leuda Coelho, vem trabalhando na orientação da população rural e das comunidades tradicionais, buscando ampliar a conscientização sobre os riscos do fogo durante um período de maior vulnerabilidade climática.
A preocupação não é simplesmente abandonar práticas tradicionais que fazem parte da realidade de muitas famílias, mas estimular alternativas de manejo que possam ser adotadas pelos pequenos produtores sem representar custos incompatíveis com sua capacidade econômica.
O desafio está justamente em conciliar produção, tradição e preservação ambiental.
Para famílias que dependem diretamente da lavoura e da criação de animais, investir em máquinas, equipamentos e tecnologias de preparo do solo nem sempre é uma possibilidade financeira. Por isso, políticas de orientação técnica, assistência rural e divulgação de métodos de baixo custo podem ser decisivas.

UM NOVO CENÁRIO PARA O CAMPO
A atual situação climática coloca Bujaru diante de uma equação delicada: produzir mais e, ao mesmo tempo, reduzir a vulnerabilidade das comunidades rurais aos efeitos do clima.
O alerta não significa que toda queimada necessariamente se transformará em incêndio, mas as condições previstas aumentam a possibilidade de que o fogo escape do controle.
E o cenário meteorológico exige cautela. Segundo o INMET, o El Niño deverá ganhar força durante a primavera de 2026, podendo produzir efeitos importantes sobre diferentes regiões brasileiras. Para o Norte, a combinação entre temperaturas elevadas e menor volume de chuvas é particularmente preocupante.
Para o prefeito Miguel Júnior, em Bujaru, a prevenção passa, portanto, por uma mudança gradual na relação com o fogo. O município precisa preservar sua produção rural e, simultaneamente, reduzir o risco de que uma prática utilizada para preparar a terra se transforme em um problema ambiental de grandes proporções.

A prioridade, neste momento, é antecipar o problema: orientar o produtor, proteger as comunidades, preservar os recursos naturais e preparar o município para um período climático que promete ser mais quente e seco, trabalho este realizado pelas próprias comunidades, igrejas e escolas.
Fotos e vídeos: R3 Comunicação