Avanço da agropecuária pressiona áreas protegidas da Amazônia e acende alerta para o Pará
Levantamento do MapBiomas aponta que 13,6 milhões de hectares ocupados pela atividade estão no entorno de Unidades de Conservação, Terras Indígenas e territórios quilombolas; estradas favorecem a expansão da ocupação
Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação
O crescimento da agropecuária na Amazônia vem ampliando a pressão sobre áreas estratégicas para a conservação da floresta, especialmente nos territórios próximos a Unidades de Conservação, Terras Indígenas e comunidades quilombolas. No Pará, estado que reúne importantes áreas de floresta nativa e atividades econômicas ligadas à pecuária, à agricultura e à mineração, os dados reforçam a necessidade de conciliar produção, ordenamento territorial e proteção ambiental.
Um recorte da Coleção 11 do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (14), mostra que a agropecuária ocupava aproximadamente 65,2 milhões de hectares do bioma Amazônia em 2025. Desse total, 13,6 milhões de hectares estavam no entorno de áreas protegidas. Nessas regiões próximas, a atividade já correspondia a 30,5% do território analisado.
O levantamento reúne informações sobre as mudanças na cobertura e no uso da terra entre 1985 e 2025 e revela a dimensão das transformações ocorridas na região ao longo de quatro décadas.

Pará está no centro do desafio ambiental
A situação do Pará merece atenção diante da dimensão territorial do estado, da presença de áreas protegidas e da importância econômica das atividades rurais. A expansão da pecuária, da agricultura e de outras atividades produtivas exige planejamento para evitar que a abertura de novas áreas avance sobre a vegetação nativa e comprometa territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Dados do MapBiomas Alerta indicam que o Pará acumulou mais de 2 milhões de hectares de vegetação nativa desmatados entre 2019 e 2025, considerando a série de alertas validados do período. O número evidencia a dimensão histórica da pressão sobre a cobertura vegetal paraense, embora esse indicador utilize metodologia diferente da análise de uso da terra apresentada na Coleção 11.
O desafio não se limita a impedir novos desmatamentos. Também envolve acompanhar a ocupação do solo, fiscalizar atividades ilegais, recuperar áreas degradadas e estimular formas de produção que aumentem a produtividade sem exigir a abertura contínua de novas áreas.
Para o setor agropecuário, a conservação da vegetação nativa também está relacionada à segurança jurídica das propriedades, à preservação dos recursos hídricos e à manutenção de condições ambientais necessárias à própria produção.

Estradas facilitam o acesso e ampliam a pressão
Um dos principais resultados do estudo é a relação entre a proximidade das vias de circulação e a concentração das atividades agropecuárias.
Dos 157 milhões de hectares localizados a até cinco quilômetros das 618 mil quilômetros de vias mapeadas na Amazônia, 40,2% eram ocupados pela agropecuária. Isso equivale a aproximadamente 63 milhões de hectares, mais de 96% da área ocupada pela atividade em todo o bioma, segundo o levantamento.
A análise considera tanto estradas oficiais quanto vias identificadas em bases complementares, incluindo informações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e do OpenStreetMap.
A participação da agropecuária diminui nas áreas mais distantes dessas vias, chegando a 26,7% do território analisado. O resultado indica que a acessibilidade é um fator importante para compreender a distribuição das atividades econômicas e a pressão sobre a floresta.
No Pará, onde a infraestrutura de transporte é fundamental para o escoamento da produção e a integração de municípios, o planejamento rodoviário precisa considerar também os efeitos indiretos da abertura e da ampliação de acessos. Estradas podem reduzir custos logísticos e facilitar o deslocamento de pessoas e mercadorias, mas também podem aumentar a pressão sobre áreas de floresta quando não há fiscalização e ordenamento territorial adequados.
O pesquisador Bruno Ferreira, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e integrante da equipe do MapBiomas Amazônia, alerta para os riscos desse processo.
Segundo ele, as estradas facilitam o acesso a áreas de vegetação nativa e podem favorecer a ocupação e a conversão da terra. Nas proximidades e no interior de áreas protegidas, essa pressão pode estar associada à expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades que modificam a cobertura do solo.
CRESCIMENTO DE 561% EM 41 ANOS
A dimensão histórica do avanço também chama a atenção. De acordo com o MapBiomas, a área ocupada pela agropecuária no entorno de territórios protegidos da Amazônia cresceu 561% em 41 anos.
O indicador mostra que a pressão não é um fenômeno recente. Ela resulta de décadas de mudanças no uso da terra, abertura de áreas produtivas e expansão da ocupação humana.
Embora a presença de atividades econômicas nas proximidades de áreas protegidas não signifique, por si só, que exista uma infração ambiental, a concentração da ocupação nessas regiões exige monitoramento permanente. A situação se torna especialmente preocupante quando há avanço sobre vegetação nativa, invasões de terras públicas ou desrespeito aos limites legais de proteção.
Para o Pará, a questão envolve também a proteção de territórios tradicionais, a prevenção de conflitos fundiários e a garantia de que o desenvolvimento econômico não seja sustentado pela degradação de áreas ambientalmente relevantes.
PASTAGENS PREDOMINAM NA OCUPAÇÃO
Em todo o bioma Amazônia, a agropecuária ocupava cerca de 15,5% do território em 2025. As pastagens destinadas à pecuária respondiam por 50,8 milhões de hectares, enquanto a agricultura ocupava outros 8,6 milhões de hectares, conforme os números divulgados.
A predominância das pastagens evidencia o peso da pecuária na transformação da paisagem amazônica. Ao mesmo tempo, reforça a importância de recuperar áreas degradadas, melhorar o aproveitamento das terras já abertas e adotar práticas que reduzam a necessidade de expansão territorial.
Uma estratégia voltada à intensificação sustentável da produção, acompanhada de assistência técnica, rastreabilidade e fiscalização ambiental, pode contribuir para compatibilizar a atividade econômica com a conservação da floresta.
No caso paraense, a recuperação de pastagens e o aumento da produtividade em áreas já utilizadas representam caminhos a serem considerados no planejamento do setor, sem dispensar o cumprimento da legislação ambiental e o respeito aos direitos territoriais.
Desmatamento continua sendo um problema estrutural
O levantamento também apresenta dados sobre a perda de vegetação nativa na Amazônia. Entre 1985 e 2025, o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. Considerando também as áreas já transformadas anteriormente, o território antropizado chegou a 74,6 milhões de hectares.
A formação florestal foi a cobertura mais afetada no período, com perda de 49,7 milhões de hectares, equivalente a uma redução de 14,8%, segundo os números apresentados pelo estudo.
Em 2025, foram registrados 693 mil hectares de desmatamento no recorte divulgado pelo levantamento. Desse total, 639 mil hectares correspondiam à vegetação primária e 54 mil hectares à vegetação secundária.
Esses números devem ser interpretados conforme a metodologia específica da Coleção 11, que acompanha a cobertura e o uso da terra. Os resultados podem diferir dos indicadores produzidos por sistemas que utilizam outros critérios, períodos de referência ou procedimentos de validação.
A mineração também ampliou sua presença no bioma. Em 2025, a atividade ocupava aproximadamente 440 mil hectares, diante de 32 mil hectares no início da série histórica — uma área cerca de 14 vezes maior em quatro décadas.
Produção e floresta precisam entrar na mesma equação
Os resultados do MapBiomas colocam em evidência um dos principais desafios do desenvolvimento amazônico: gerar renda, empregos e alimentos sem ampliar a destruição da vegetação nativa.
No Pará, essa discussão passa pelo fortalecimento da fiscalização, pela regularização fundiária, pela proteção das terras indígenas e quilombolas e pelo incentivo a modelos produtivos que aproveitem melhor as áreas já abertas.
Também exige atenção aos efeitos da infraestrutura. O planejamento de estradas e outros empreendimentos precisa considerar não apenas os benefícios econômicos imediatos, mas também os riscos de ocupação desordenada, desmatamento e conflitos territoriais.
A expansão agropecuária pode fazer parte da economia amazônica, mas os dados indicam que seu avanço próximo a áreas protegidas exige acompanhamento rigoroso. O desafio é assegurar que o desenvolvimento do Pará e dos demais estados amazônicos não dependa da perda progressiva da floresta que sustenta a biodiversidade, os recursos naturais e atividades econômicas de longo prazo.
Fonte dos dados: MapBiomas, Coleção 11, com informações sobre cobertura e uso da terra de 1985 a 2025; MapBiomas Alerta, para os dados de desmatamento acumulado no Pará.

Com informações da Agência Brasil/Fotos: R3 Comunicação