Pesquisa financiada pela Fapespa revela novos caminhos para mapear a sociobiodiversidade em territórios indígenas da Amazônia
Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação
Em meio ao intenso debate global sobre o futuro climático do planeta, um projeto apoiado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) vem se destacando por unir ciência, ancestralidade e participação direta de povos indígenas na investigação da biodiversidade amazônica. Trata-se de “Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do Antropoceno”, um estudo inédito que propõe compreender, em profundidade, as relações entre floresta, tempo e modos de vida tradicionais.
A iniciativa integra a chamada Expedições Científicas Amazônia +10 e reúne pesquisadores brasileiros e internacionais. O objetivo é ambicioso: mapear a sociobiodiversidade de três territórios indígenas considerados estratégicos para a ciência e para a conservação — Alto Rio Negro (AM), Terra Indígena Alto Xingu (MT) e Terra Indígena Kayapó (PA) — revelando como a floresta foi moldada por conhecimentos milenares.

Amazônia vista por dentro: ciência e ancestralidade lado a lado
No Pará, a coordenação está sob responsabilidade da arqueóloga Helena Pinto Lima, pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Ela explica que o trabalho rompe com abordagens tradicionais ao integrar arqueologia, biologia, antropologia, linguística e tecnologias como o sensoriamento remoto com saberes indígenas transmitidos de geração em geração.
“Os maiores conhecedores desses territórios são os próprios povos e as próprias comunidades. Nosso papel é criar uma ponte entre ciência acadêmica e ciência indígena para construir soluções conjuntas para os desafios da Amazônia”, afirma a pesquisadora.
A equipe multidisciplinar inclui nomes de instituições como USP, UnB, Museu da Amazônia (MUSA), Museu Nacional (UFRJ) e University College London (UCL), reforçando o caráter internacional da iniciativa.

Riqueza biológica e cultural sob novas lentes
Cada território estudado abriga uma combinação singular de povos, histórias, ecossistemas e formas próprias de manejo da floresta. Segundo Helena Lima, a profundidade temporal dos conhecimentos indígenas — alguns com milhares de anos — tem revelado como plantas, animais e paisagens carregam marcas de convivência e cuidados que antecedem a própria ciência moderna.

As primeiras ações do projeto já incluem:
- Inventários biológicos em regiões pouco documentadas;
- Mapeamentos participativos com uso de geotecnologias;
- Troca de saberes entre pesquisadores e comunidades;
- Registros de transformações ambientais causadas por atividades humanas ao longo do tempo;
- Documentação linguística, etnográfica e sociocultural (prevista para as próximas etapas).
Os pesquisadores estimam que os dados gerados poderão descrever novas espécies, atualizar classificações taxonômicas e oferecer subsídios inéditos para políticas ambientais na Amazônia Legal.

Amazônia +10: três anos de ciência para o clima
Durante a COP 30, encerrada em 22 de novembro em Belém, Helena Lima apresentou os avanços do projeto no painel “Iniciativa Amazônia +10: três anos fortalecendo Ciência e Inovação na Amazônia”, realizado no espaço Estação Amazônia Sempre, no Museu Goeldi.
O debate contou com a presença do diretor-presidente da Fapespa, Marcel Botelho, e de Ellen Acioli, representante do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Na ocasião, foram divulgados números que mostram a robustez da iniciativa:
- 19 Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) envolvidas;
- Mais de 1.400 pesquisadores mobilizados;
- 181 instituições de ciência e tecnologia participantes;
- R$ 95 milhões em recursos disponibilizados;
- 22 grandes projetos selecionados.
A chamada Expedições Científicas recebeu ainda apoio de agências internacionais como o British Council, UKRI, SNSF e Baylat, reforçando o interesse global na preservação e no conhecimento da Amazônia.
Tecnologias milenares para desafios do futuro
Para Helena Lima, compreender o passado é essencial para enfrentar o futuro:
“A partir da pesquisa arqueológica, estamos mapeando a profundidade temporal desses conhecimentos. Tecnologias milenares podem ser soluções para o futuro da Amazônia”, avalia.
A pesquisadora ressalta que o projeto parte da sociobiodiversidade, conceito que integra plantas, animais e povos em uma perspectiva histórica. O resultado esperado é ampliar a produção científica e o impacto social da pesquisa, fortalecendo comunidades indígenas e contribuindo para estratégias de adaptação em tempos de mudanças climáticas.
Uma Amazônia que fala por si
Ao escutar as vozes dos povos originários, o projeto financiado pela Fapespa aponta para um novo paradigma: o de que a floresta não é apenas um ambiente a ser estudado, mas um território vivo, construído e cuidado por seus habitantes ao longo dos séculos.
A pesquisa segue em execução e deve se tornar uma das bases mais completas já produzidas sobre o mosaico de biodiversidade e cultura que define a Amazônia — um patrimônio cuja preservação depende de ciência, respeito e diálogo.
Fotos: Reprodução/Agência Pará de Notícias
