Estimativas sobre população de jumentos no Brasil geram controvérsia e alerta de especialistas
A recente divulgação de dados internacionais apontando que a população de jumentos no Brasil seria até “dez vezes maior” do que estimativas anteriores acendeu um alerta entre cientistas, pesquisadores e entidades de defesa animal. Especialistas contestam a metodologia utilizada e denunciam inconsistências que podem mascarar o risco real de desaparecimento da espécie, especialmente no Nordeste.
Os números foram publicados pela World Population Review, que afirma ter utilizado como base informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. No entanto, pesquisadores destacam que essas projeções apresentam limitações importantes e não devem ser interpretadas como dados precisos da realidade brasileira.

De acordo com especialistas ligados à Universidade de São Paulo e à Universidade Federal de Alagoas, a FAO não realiza censos próprios e trabalha com estimativas baseadas em dados secundários. No caso brasileiro, essas informações têm origem na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que não possui caráter censitário e depende de informantes locais — o que pode gerar distorções.
Outro ponto crítico é que o IBGE deixou de divulgar dados específicos sobre jumentos em 2013. Desde então, as estimativas passaram a ser feitas por modelos estatísticos, que tendem a suavizar variações ao longo do tempo e podem não refletir quedas abruptas na população.
Especialistas afirmam que, ao contrário de animais de grande relevância econômica, como bovinos e suínos, os jumentos não recebem monitoramento rigoroso. Isso impacta diretamente a confiabilidade dos dados e dificulta análises mais detalhadas sobre a realidade da espécie no país.
Um exemplo das divergências pode ser observado em 2017, quando o Censo Agropecuário do IBGE registrou cerca de 376 mil jumentos no Brasil, enquanto a FAO apontava mais de 840 mil no mesmo período. Para pesquisadores, essa diferença evidencia a fragilidade das estimativas internacionais.
Além disso, estudos acadêmicos indicam que a população de jumentos vem sofrendo forte redução nos últimos anos, especialmente após a intensificação do abate de animais para exportação de peles destinadas à produção de ejiao — produto tradicional em países asiáticos, com destaque para a China.
Pesquisas conduzidas por instituições brasileiras apontam que a cadeia produtiva dos jumentos no país é desorganizada, sem registros consistentes de criação, transporte ou controle sanitário. Características biológicas da espécie, como baixa taxa reprodutiva e longo período de gestação, também dificultam a reposição populacional.

Levantamentos mais recentes indicam que, em 2025, o Brasil possuía cerca de 78 mil jumentos nordestinos — número considerado preocupante. Segundo entidades de proteção animal, houve uma redução de aproximadamente 94% da população nas últimas décadas.
Organizações como a The Donkey Sanctuary e a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos reforçam a necessidade de maior transparência por parte do Ministério da Agricultura e Pecuária em relação aos dados oficiais, além de políticas públicas voltadas à preservação da espécie.
Outro ponto levantado pelos especialistas é o uso das estimativas infladas por setores interessados na continuidade do abate. Segundo críticas, a divulgação desses números sem o devido contexto pode minimizar a gravidade da situação e comprometer ações de संरक्षण.
Diante do cenário, pesquisadores alertam que os dados da FAO e de plataformas internacionais são úteis para identificar tendências gerais, mas não substituem levantamentos de campo detalhados. A falta de informações precisas, aliada à exploração crescente, coloca o jumento nordestino em estado de alerta, exigindo medidas urgentes para evitar sua extinção.
Da R3 Comunicação com informações da Agência Pauta Social
