Pará reage à queda do cacau e cobra do governo federal freio nas importações

 Pará reage à queda do cacau e cobra do governo federal freio nas importações

Por ROBERTO BARBOSA/R3 Comunicação

A forte desvalorização do cacau e a entrada crescente do produto importado acenderam o alerta no campo paraense. Diante do cenário, o Governo do Pará intensificou articulações com o Ministério da Agricultura para tentar conter as importações e proteger quem vive da cacauicultura, especialmente nas regiões da Transamazônica e do Baixo Xingu.

Na manhã da sexta-feira (06), uma comitiva estadual esteve em Medicilândia, um dos maiores polos produtores do país, para ouvir agricultores e lideranças locais que relatam prejuízos severos com a queda do preço da amêndoa. O governador Helder Barbalho confirmou que o tema já chegou ao governo federal e que uma reunião decisiva foi agendada em Brasília.

Segundo o chefe do Executivo estadual, o encontro com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, acontece na próxima quarta-feira (11). A pauta inclui a reavaliação das importações de cacau, sobretudo do continente africano, que vêm pressionando o mercado interno e derrubando os valores pagos ao produtor brasileiro.

“O impacto dessas importações é direto no bolso de quem produz aqui. Vamos levar produtores, representantes do setor e parlamentares para defender a suspensão dessas compras externas e buscar medidas que valorizem o cacau paraense”, afirmou Helder Barbalho.

Liderança nacional ameaçada

Mesmo sendo o maior produtor de cacau do Brasil — responsável por mais de 50% da produção nacional — o Pará sente os reflexos do mercado internacional. Em 2024, o estado ultrapassou a marca de 153 mil toneladas produzidas, gerando mais de 320 mil empregos diretos. Ainda assim, a cotação do produto despencou nos últimos meses.

Durante mobilização realizada às margens da Rodovia Transamazônica, agricultores cobraram ações imediatas. O secretário de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz, destacou que o governo estadual busca soluções estruturais, como incentivar a instalação de indústrias de processamento de cacau na própria região produtora.

Alerta sanitário

Outro ponto de preocupação envolve a segurança fitossanitária. O diretor-geral da Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará), Jamir Macedo, alertou para os riscos da entrada de pragas e doenças exóticas no país, já que o cacau importado nem sempre passa pelos mesmos critérios rigorosos exigidos da produção nacional.

“A legislação precisa ser revista. Importar sem controle adequado coloca em risco toda a cadeia produtiva, além de prejudicar a competitividade do produtor local”, enfatizou Jamir.

A Adepará atua atualmente na certificação de agroindústrias artesanais de chocolate e na fiscalização das lavouras para garantir a sanidade do cacau produzido no estado.

Produtores sentem o baque

Para quem depende diretamente da lavoura, a situação é dramática. Em Medicilândia, produtores relatam que o quilo do cacau, que já chegou a R$ 80, hoje mal alcança R$ 20 — uma perda de cerca de 75%.

“É uma queda que compromete a sobrevivência das famílias. Precisamos de um preço justo e de regras iguais para todos, inclusive para quem importa”, desabafou o produtor José Santo de Moraes.

Waltenir Moraes, agricultor familiar, reforçou a importância do apoio estadual. “Medicilândia sozinha produz cerca de 54 mil toneladas por ano. Sem a intervenção do governo, fica impossível competir”, disse.

Somente em 2025, o Governo do Pará já destinou mais de R$ 8,6 milhões para fortalecer a cadeia produtiva do cacau, com entrega de equipamentos, capacitação técnica e melhorias na organização rural.

Fotos: Agência Pará de Notícias

Roberto Barbosa

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